quinta-feira, 24 de maio de 2018

Um refúgio pode ser apenas o recanto entre o roupeiro e a mesinha de cabeceira

Quando era criança, sempre que me chateava com o mundo ou o mundo se chateava comigo, sempre que não era correspondida nos afectos ou sempre que fazia ou dizia algo politicamente incorrecto, escondia-me no recanto entre o roupeiro e a mesinha de cabeceira do quarto dos meus avós. Era o meu refúgio, o lugar que me abraçava e protegia. Era o meu esconderijo, onde me sentava com a cara nos joelhos, fechava os olhos e acreditava que, assim, o mundo não mais iria olhar para mim, nem julgar-me, nem apontar-me o dedo, nem rir-se de mim. Naquele espaço tão pequeno e tão quente, eu podia reconstruir o meu mundo de dentro. De olhos fechados, via só os sonhos e sentia em mim a certeza de que, ali, naquele bocadinho de chão, tudo estava bem, tudo estava em paz. Não raras vezes a minha avó encontrava-me, puxava-me para ela e deitava-me no seu colo. Dizia que ia ficar tudo bem. Que ia passar. Que as lágrimas não caiem para sempre e que as feridas também se curam.
Há já algumas noites que me sento no chão do quarto [agora do meu], no recanto entre a secretária e a janela. Tento fazer de conta que aquele é também um refúgio, mas não é. Não é a mesma coisa, não me transmite a mesma segurança, nem o mesmo conforto, nem aquela certeza doce de que estou protegida de todo o mal. E num tempo em que já não há refúgios assim, resta-me fazer do meu coração o lugar onde posso esconder-me e a partir do qual posso renascer.


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Síndrome da eterna adolescente

Quando sou assomada pela ansiedade e fecho os olhos, volto a ser a menina de quinze anos. Dou por mim naquele meu jeito entre o medo de ser e a vontade de me expressar. Sou outra vez a adolescente com os olhos pintados de preto [sempre em demasia] que escrevia poemas nas aulas de matemática enquanto olhava pela janela e desejava voar, qual pássaro enjaulado dentro de si próprio. Fecho os olhos e ainda sou muito essa menina a quem tiraram o chão e a quem a solidão engoliu. Coração descompassado e paixão fácil mas duradoura. Com medo de si própria e dos fantasmas que lhe consumiam as noites e os dias. Amante das letras, porém confinada a um laboratório de ciências cujos cheiros provocavam náuseas e onde o amor era expiado em todas as cores oferecidas pela junção de químicos num tubo de ensaio. Há dias em que sinto que, no fundo, terei sempre um quê dessa adolescente deslocada. Ainda sinto que me falta muito tempo até ser grande. Ainda gosto de ouvir as minhas músicas no meu canto, enquanto invento histórias de amor na minha cabeça. Ainda gosto de me sentar no chão a escrever versos. E ainda me apaixono irremediavelmente, como se o mundo fosse acabar se eu não sentisse esse amor. Tantas vezes ouvi que tinha de crescer que agora, já crescida, continuo a sentir-me mais nova do que sou, mais miúda do que mulher, mais filha do que possível mãe, mais pé no chão do que salto alto. Talvez seja a síndrome da eterna adolescente, com a leveza e a graça que isto do passar dos anos confere.


Porque também gosto de ser desafiada | Sunshine Blogger Award


Hoje não vamos falar de amor, nem de saudade, nem de emoções. Ou, pensando melhor, iremos mesmo falar de tudo isso. Desafiada pela querida Margarida Pestana - fotógrafa talentosa, caçadora de sonhos e escritora de emoções - irei responder a este desafio com todo o coração. Obrigada Margarida querida, por esta nomeação e pela possibilidade de poder conhecer e interagir com outras pessoas queridas e talentosas que por cá andam neste mundo de letras. E obrigada, acima de tudo, pela possibilidade de voltar atrás no tempo, onde a blogosfera era pautada por coisas simples e giras como esta, sem a obsessão dos "likes" desta vida.

Regras do Sunshine Blogger Award
1. Agradecer à blogger que nomeou
2. Responder às 11 questões feitas
3. Nomear 11 bloggers e fazer 11 perguntas
4. Colocar as regras e o logótipo no post


1. O que é que consideras ser importante num blog para que o sigas?
A verdade. A autenticidade. O amor que transparece em cada palavra, em cada partilha. Eu acredito que isso transparece. Quando colocamos as nossas emoções e o nosso coração naquilo que escrevemos, é quase impossível que a pessoa que lê não sinta isso.

2. Achas que existe competição na blogosfera? O que achas disso?
Se estivermos a falar de blogues mais comercias, digamos assim, sim, acredito que haja competição. Da mesma forma que há competição entre empresas, também há competição entre blogues que são, no fundo, o trabalho de muitas pessoas. Se a competição for saudável e numa perspectiva evolutiva, não vejo problema.

3. O que achas que podia melhorar a imagem que a sociedade tem dos bloggers?
O conteúdo. Precisamos de blogues com conteúdo e não apenas de catálogos de roupa ou produtos de beleza. Há espaço para tudo, mas acredito que um bom conteúdo, escrito com coração e verdade, faz falta.

4. Como seria o teu mundo ideal?
Eu sou uma idealista por natureza. O meu mundo ideal seria um mundo equilibrado, abundante, sereno e pacífico. Seria um mundo com mais alma e menos ego, com mais amor-próprio e pelos outros e com mais compaixão. Um mundo onde as pessoas não tivessem medo de correr atrás dos sonhos.

5. Indica três palavras que te definam enquanto pessoa.
Sonhadora. Doce. Verdadeira.

6. Indica três palavras que representem o teu blog.
Amor. Saudade. Emoção.

7. Onde te vês daqui a 5 anos?
Daqui a cinco anos terei trinta e cinco. Gostaria muito de estar estável a nível profissional, ter a minha casa-refúgio na minha aldeia-dos-sonhos, continuar a escrever e começar a pensar na possibilidade de ser mãe.

8. O que precisas para ser feliz?
Preciso de cada vez menos para ser feliz. Estar com as minhas pessoas. Acordar e tomar o pequeno-almoço de frente para a janela, da qual vejo o horizonte. Contemplar o pôr-do-sol. Deitar-me na minha varanda, nas noites quentes de verão, a olhar as estrelas. Comer gelado. Beber limonada. Ler, descobrir livros novos. Sentar-me no jardim e ficar assim, embrenhada no meu silêncio e no meu coração.

9. O que sentes que falta na blogosfera portuguesa? 
Como já disse anteriormente, falta conteúdo vindo directamente do coração. Ultimamente, as pessoas têm como que receio de escrever o que sentem. De repente, instalou-se uma quase obrigatoriedade de que tens de estar sempre bem e feliz e "om shanti, shanti" e ai de ti se te sentes tristes. As pessoas não têm de ter medo de expressar as suas emoções. É através dessa expressão, seja através da escrita, da música ou da pintura, que o negativo é transmutado em positivo.

10. Como vês a blogosfera daqui a 10 anos?
Gostava muito que houvesse mais blogues pessoais, como há uns anos. Que as pessoas escrevessem por prazer e não por obrigação ou para receber dividendos. Não sei se será esse o futuro da blogosfera, mas gostava muito.

11. Diz-me uma coisa que mais gostes no teu trabalho enquanto blogger.
Expressar as emoções. É através das palavras que, muitas vezes, devolvo a luz ao meu lado sombra (aquele que todos temos mas que poucos conseguem aceitar e transformar).


As minhas perguntas:
1. O que te levou a criar um blogue?
2. Prosa ou poesia?
3. Qual é o livro da tua vida?
4. Pôr-do-sol ou amanhecer?
5. Um dia perfeito é...
6. Um amor para a vida ou uma vida cheia de amores?
7. Se a tua vida fosse um livro, qual seria o título?
8. Canela ou chocolate?
9. O que dirias àquela menina de quinze anos que foste um dia?
10. Campo ou cidade?
11. Qual é o teu maior sonho?

Não vou conseguir nomear 11 blogues pois, além de não seguir assim tantos, alguns já foram nomeados. Assim sendo, vou nomear três blogues que já acompanho há muito, muito tempo, desde o tempo em que os blogues eram diários cheios de coisas banais, bonitas e com sentido:


segunda-feira, 21 de maio de 2018

Endoideci de amor por ti

Quase parece título de canção mas é tão somente o estado em que me encontro nesta manhã de Maio. Há três noites que não durmo com o barulho do meu coração. Acelera, desacelera, dá cambalhotas dentro do peito e corta-me a respiração. Dilui-se em emoções que me chegam à garganta sem que eu as saiba pronunciar. Nem escrever me ajuda mais. Trocam-se os dedos e a agiganta-se a vontade de desatar a correr para junto de ti. Endoideci de amor. Deixei-me embriagar por este sentir que pensava adormecido ou mesmo apartado de mim. De repente, num rasgo de lucidez [ou de perda dela] fez-se luz nesta alma com sombras e descobri, entendi que eras tu. Eras tu. Eras tu. Por quem tanto tempo esperei. Por quem tanto tempo ansiei. A quem escrevi cartas de amor mesmo sem ainda saber o teu nome. A quem me confiei por inteira mesmo sem saber se chegarias até mim. Endoideci de amor. E o que mais me custa nesta minha loucura que sabe tão bem, é a incerteza de também tu compactuares comigo nesta insanidade, é a incerteza pautada pela tua indiferença, ou medo, ou confusão, que não te deixa aproximar. Não tenhas mesmo pois esta loucura é das boas, daquelas que dá para rir e amar sem medida. Endoideci, é verdade. E só queria poder dar-te a mão, olhar-te nos olhos e partilhar contigo todos os mundos, todas as cores, todos os versos, todos os risos, todo o amor que tenho em mim.

sábado, 19 de maio de 2018

Fora de Horas

Escrever para ti é a única forma que encontrei de expressar através das palavras o sentimento que tenho sufocado no peito. Não sei se irás ler mas isso não tem importância. O que importa é que não quero correr o risco de morrer afogada nas palavras que te quero dizer. Porque este turbilhão de emoções tira-me o sono, a fome, o ar. Este turbilhão de emoções, ao qual não consigo dar nome, tem preenchido os meus dias e esvaziado a parca esperança que me resta. É-me difícil entender como não te apercebes, como não notas, como não sentes isto que sinto por ti. É-me difícil entender a tua indiferença, o teu tanto faz, o teu faz-de-conta-que-não-sei. E a cada palavra que não dizes, há um bocadinho deste amor que morre. E a cada sorriso que me negas, há um bocadinho deste coração que esmorece.

Quando te vi pela primeira vez tive a sensação de que tinha chegado a casa. Sim, tinhas aroma de casa e tudo em ti parecia familiar e acolhedor, tal e qual uma sala quente numa noite de inverno. O teu olhar fez-me reconhecer o amor que já conhecia e, por breves instantes, deixei o coração sair do eixo e atirei-me de cabeça, na certeza de que não haveria chão duro onde cair ou mal algum que lhe pudesse acontecer. Joguei todas as cartas, toda a esperança e todo o amor. Escrevi-te frases bonitas, poemas sentidos. Tentei tocar o teu coração e fazer-te lembrar de mim.

Mas tu não me reconheceste. Não te lembraste da minha pele e muito menos da nossa história prometida. A tua alma não quis a minha. E viste em mim tudo aquilo que eu não sou. Viste apenas a excentricidade dos meus vestidos, que uso para colorir a minha vida. Viste apenas a minha maquilhagem exagerada, que uso para esconder a minha dor. Viste apenas o meu falso charme, que uso para camuflar a minha insegurança. Viste apenas o meu aparente desinteresse, que uso para não me fragilizar. Talvez tudo isso te tenha causado medo. Ou talvez tenhas visto mais além. Talvez tenhas visto as minhas sombras e os meus fantasmas. Talvez tenhas reparado que o meu coração não é por inteiro e sim uma reconstrução tosca, com cicatrizes várias e estórias não tão bonitas. Talvez tenhas notado os sulcos das muitas lágrimas que já chorei. Talvez tenhas percebido que, por vezes, sou mais forte do que aquilo que sou e tenho mais medos do que aqueles que digo. Talvez tenha sido tudo isso. Talvez não tenha sido nada.

E nesta dança de faz-de-conta, os meus dias transformam-se em páginas em que tu assumiste o papel de personagem principal, enquanto eu me afogo em letras pretas e neste sentimento que te quero cantar e não consigo. E nestas noites de insónia, dou por mim no limbo entre o sono e o sonho e tenho a sensação de que, a qualquer momento, chegarás para me dar a mão e dizer que está tudo bem. Meu amor, quem me dera poder chamar-te para sempre meu amor. Enquanto não posso, resta-me esta expiação de sentir, este libertar como quem respira pela primeira vez, esta esperança absurda e tão pequena de que serás o meu príncipe encantado e eu serei a eterna menina dos livros que te escreve cartas de amor.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Cansada de morrer de amor


Morrer de amor e ressuscitar, tantas vezes, cansa. Quebrar o coração e voltar a colá-lo cansa. E por maior que seja a minha fé e o meu optimismo e o meu acreditar que desta é que é, há dias em que acordo profundamente cansada, profundamente exausta, com o coração a meus pés e eu sem vontade de voltar a pegar-lhe ao colo. Morrer de amor é como morrer um bocadinho de verdade. Esmoreces, deixas-te cair, quebras-te em pedaços pequeninos. falta-te o ar e quase podes jurar que desta é que vais passar para o lado de lá. Mas nunca passas. Porque o morrer de amor necessita da tua vida para que possas aprender, para que sejas obrigado a retomar a tua forma e o teu caminho. Mas morrer de amor, tantas vezes, acaba por nos matar um bocadinho a alma. E deixa-nos cansados. E, a cada amor que morre dentro de nós, há uma faísca de fé que se apaga.

Hoje acordei profundamente cansada de morrer de amor. Cansada de ter de me reerguer a cada falhanço. Cansada de ter de fazer cara alegre para o amor que passa e não fica. Cansada de dizer que está tudo bem, que mais amor menos amor não faz diferença. Cansada de dizer que já passou, que estou pronta para outra, que venha o próximo [amor] e a próxima [desilusão]. No entanto, tal como as flores secas renascem na primavera, irei ressuscitar outra vez. Irei apanhar os cacos e colá-los com paciência e ternura. Irei recolocar o coração no seu devido lugar. Irei voltar a acreditar, uma e outra vez, até que todas as luzes se apaguem e não haja mais vidas para gastar. Porque talvez seja este dar em demasia, este amar desenfreadamente, este jogar todas as cartas e todas as emoções de uma só vez, este morrer de amor de forma contínua, que me mantém à superfície, que me dá sentido aos dias. Resta saber até quando a fé vai vencer o cansaço.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Saudade antecipada e essa tristeza de não ter perto quem gosto


Não gosto de ausências. Não gosto do não estar. Não gosto de distância nem de fronteiras. Não gosto de ter as minhas pessoas longe de mim. E não há chamadas, mensagens ou outras coisas que tais que as abençoadas novas tecnologias inventaram para encurtar a distância, que consigam atenuar a saudade. Porque sou de abraços. Porque sou de olhos nos olhos. Porque sou de voz ao vivo. Porque sou de todas essas emoções que só o perto permite. Porque tenho essa necessidade quase fisiológica de ter perto quem amo. Porque me salta o coração do peito a cada despedida, a cada até já, a cada rasgar do céu num golpe de asa. Sou assim, de afectos pele na pele. Não sei ser de outro jeito. E isso custa-me horas de sono, lágrimas de saudade e aquela vontade louca de pegar no mundo inteiro e abaná-lo até colocar tudo no seu lugar. Não gosto de ausências. Ponto.